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Movimentos denunciam possíveis irregularidades na política de cotas

12 / jan
Publicado por Allan Nascimento em FEDERAIS às 14:33

As primeiras possíveis irregularidades no uso das cotas começaram a aparecer por causa de denúncias de militantes do movimento negro. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 440 alunos foram denunciados em um documento elaborado ao longo de quase um ano pelo Movimento Balanta de estudantes negros.

A denúncia só foi possível porque, desde 2016, a própria universidade passou a divulgar, em seu site oficial, a modalidade de ingresso de cada um dos aprovados no vestibular, incluindo o fato de serem ou não cotistas, e por qual tipo de cota (apenas escola pública, renda ou raça).

Foi então que os alunos cruzaram esses dados com imagens dos colegas nas redes sociais, para checar se, de fato, eram alunos pretos, pardos e indígenas. “O primeiro indício de fraude partiu da nossa vivência. Aumentou o número de cotistas em vários cursos. Só que a gente chegava aqui, no dia das matrículas, e se perguntava: ‘Cadê a galera?’ Se era para entrar 20, a gente via quatro. Tem alguma coisa errada. As vagas estavam sendo ocupadas, mas os negros não estavam dentro da universidade”, comenta o estudante de Administração Pública Cilas Machado, de 22 anos, que entrou por meio das cotas. “Se tem 300 fraudes, isso significa que 300 negros deixaram de entrar na universidade”, completa a estudante cotista de Direito Carla Zanella, de 27 anos.

As críticas acontecem, principalmente, em relação aos alunos que se autodeclararam pardos mas que, no entendimento do movimento negro, não podem ser considerados negros. Isso mesmo que tenham parentes negros.

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“O racismo se dá por marca, por parecer socialmente negro, por fenótipo. Existe um consenso de que, para sofrer os processos da barreira racial, deve-se parecer negro. Essas pessoas [QUE FRAUDAM] estão usufruindo certas lacunas, como a conceituação do pardo e a autodeclaração para, visivelmente, fraudar”, diz Machado.

Situação semelhante aconteceu na federal de Pelotas, a UFPEL. “Era só gente branca que entrava. A comissão foi só uma forma de comprovar algo que a gente via no nosso dia a dia”, reclamou uma das denunciantes, que pediu para não ser identificada.

Indeferimento. A UFRGS já indeferiu 239 matrículas, mas o processo foi suspenso após recomendação do Ministério Público Federal. Na UFPEL, 236 tiveram a matrícula indeferida.

Em outras instituições, as comissões de aferição só passaram a valer para novos ingressantes – caso da Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo. Em 2017, de 1,2 mil inscritos como cotistas raciais, 924 tiveram os pedidos indeferidos. O resultado saiu antes de a prova da primeira fase ser feita pelo candidato, evitando o cancelamento das matrículas.

Já na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o aluno entrega uma fotografia com a autodeclaração – com possibilidade de entrevista, se necessário.

‘Nunca tive privilégio nenhum de branco’, diz estudante barrado em curso

O estudante Fabrício Ramirez Bonacina foi indeferido no curso de Direito da UFRGS. Eis o seu depoimento:

“Eu me considero pardo e já fui perseguido por seguranças no supermercado e em lojas de roupa. Tive de explicar que sou estudante de Direito, que não sou marginal e não estava lá para roubar. O Balanta (movimento negro da UFRGS) diz que é só o negro preto que sofre racismo, e não é. O que os coletivos falam de privilégios de branco, eu nunca tive. Tenho certeza de que não sou branco. As portas nunca se abriram para mim como esses coletivos colocam.

A família, por parte do meu pai, é de origem italiana, da Serra Gaúcha. Então muitas vezes houve implicância com a cor da pele da minha mãe. Piadas de negro, diminuindo os negros, ofendendo os negros. Eu olhava para a minha pele e do meu avô e dos meus tios e eu dizia: ‘Espera aí, eu não sou da cor deles’. Então devo estar sendo incluído nessa piada preconceituosa. Percebia muito preconceito comigo e com a minha mãe.

A genética do negro, misturada com a do índio, anula os traços negroides que a comissão da UFRGS solicita, como lábios grossos e cabelo crespo. Eu me senti extremamente aviltado do meu direito. Eu pesquisei a legislação antes de me inscrever para o vestibular e fazer autodeclaração para ter certeza de que não estava cometendo ilegalidade. Eu me senti tratado como um criminoso. E me senti ofendido.

Eu fui preparado para falar questões da minha vida pessoal, questões do meu contexto social, imaginando que fosse isso que a comissão cobraria, mas não cobrou nada. Não me deram chances de me expressar. Eles me olharam, não falaram nada e me mandaram embora em um processo que não durou um minuto.

Sempre tive origem humilde. Minha infância foi em comunidade e estudei em colégio público no morro. Depois, fui morar na zona rural. Eu ia a pé, 3 km, para a minha escola. Quando resolvi que ia fazer vestibular, eu não tinha condições. Minha escola sempre foi fraca – faltava professor. Quando tinha período vago, eu ficava estudando na biblioteca. Era motivo de bullying por isso. No contexto social, sou tão carente quanto um negro.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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