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Professora da USP aponta desafios para humanização na formação de médicos

10 / out
Publicado por Allan Nascimento em NA PRÁTICA às 15:13

Humanizar a formação dos médicos demanda expandir o olhar para o novo lugar do paciente. É o que defende a professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Izabel Rios. “Ele não está aí para obedecer o que um médico diz que ele tem de fazer. Esse protagonismo do paciente tensiona a escola médica.”

Para ela, os desafios vão desde a formação de professores até a prática nos hospitais, com integração entre alunos de diferentes áreas e até entre funcionários que não estão ligados diretamente à saúde. “A humanização tem de começar da porta, no momento em que se chega ao hospital”, diz a professora, que coordena o Núcleo Técnico e Científico de Humanização do Hospital das Clínicas da USP e o Grupo de Trabalho de Humanização da FMUSP.

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Quais os principais desafios para a humanização da formação dos médicos?

A gente já sabe que precisa trabalhar com os conceitos, as atitudes e valores da humanização. A questão é como. A escola médica vem de uma tradição muito tecnicista. Está ancorada nessa tradição de uma ciência que tirou do seu foco os aspectos humanísticos que a sociedade quer que o médico esteja atento. Mudou o lugar do paciente. Ele não é um sujeito que recebe uma ação, ele atua junto com o médico. E não está aí para obedecer o que um médico ou profissional da saúde diz que ele tem de fazer. Esse protagonismo do paciente tensiona a escola médica. E a escola vem tentando responder a isso inserindo conteúdos humanísticos na formação.

Quais os caminhos para uma formação mais humana?

Primeiro, é preciso professores capacitados, conscientes e dispostos a trabalhar isso. O desafio é envolver todas as pessoas no conceito novo de cuidado humanizado. É algo que a faculdade (de Medicina da Universidade de São Paulo) está tentando fazer com o currículo novo (leia mais nessa página). Teria de capilarizar a ideia do cuidado humanizado em todas as disciplinas. O outro desafio é que, para desenvolver uma atenção humanizada, precisa de serviços humanizados. A gestão tem de ser atenta às necessidades de acolhimento, de gestão participativa. A humanização tem de começar da porta, no momento em que se chega ao hospital. Uma atitude de acolhimento no porteiro, no recepcionista e em todos os momentos em que a pessoa estiver sendo atendida.

De que modo a integração entre profissionais poderia ser estimulada na graduação?

É muito mais uma questão de atitude nas escolas. Hoje não dá mais para pensar no cuidado à saúde sem a interdisciplinaridade. Temos de ter a conjunção de saberes porque as situações de saúde e doenças são muito complexas. No ensino superior, ninguém fala com ninguém. Formam todo mundo e depois põem para trabalhar junto dentro hospital. O Hospital das Clínicas, por exemplo, é o campo de treinamento entre médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, fisioterapeutas. É onde a interdisciplinaridade faz sentido. Pode todo mundo ter suas aulas na faculdade, aprendendo bem o seu campo. Mas, depois, quando vai para o hospital, começa a discutir o caso todo mundo junto. O aluno tem de ir para o campo de prática desde o primeiro ano e desde então é possível fazer discussões de caso clínico juntando alunos de diversas áreas. A dificuldade tem a ver com não se buscar uma estratégia educacional de integração.

Estudantes e professores reconhecem a importância da formação humanizada?

O assunto divide opiniões. Temos desde professores que entendem que essas competências para o cuidado humanizado são aspectos que devem ser desenvolvidos, e estão dispostos, como professores que vão dizer que isso é de berço e que não precisa desenvolver. Toda a literatura hoje é contrária a esse segundo posicionamento Vários estudos mostram que comunicação e empatia se desenvolve e acolhimento é uma atitude que se constrói e que precisa, sim, desse desenvolvimento.

Formações de pós preenchem certas lacunas da graduação que ainda não foram alcançadas?

Em cursos de especialização (lato sensu), as experiências são positivas. Mas o sensu stricto (mestrado e doutorado) ainda patina. Nos programas de pós-graduação na USP é difícil de achar algum que dê atenção a essa tema. Isso acaba entrando mais por uma disposição do orientador.

As informações são da Agência Estado.


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